O que vejo: maternité
Há tempos quero escrever minhas impressões sobre pais e filhos aqui no meu universo particular francês e as diferenças culturais em relação ao que observo no Brasil. Mas estou aqui há pouco tempo e não tenho tantas informações práticas como as que minha amiga Adélia reuniu no post que considero definitivo sobre o tema.
(tempo pra você ler o link)
Acho que boa parte das diferenças deriva do item 29 do post. As famílias aqui são numerosas. Eles podem: têm tempo (jornada de trabalho menor), condições, incentivo (do governo!) e escola pública de qualidade. No Brasil não, e por isso mesmo temos uma verdadeira epidemia de filhos únicos. Lá (aí) a maternidade adquire ares de Copa do Mundo – fortunas são gastas nos quartos, na escolha do hospital, no chá de bebê, nos equipamentos, no enxoval, que agora tem-que-ser comprado em Miami. Já me contaram de recepção festiva em maternidades, com barrilzinho de chope. Depois vêm os aniversários que, como observou o francês citado no link, “se parecem mais com a coroação de um imperador romano”. Daí vem a escolha das escolas etc. Tudo muito dramático, épico. A maternidade, mesmo, me parece vivenciada mais intensamente. São os casais que ficam “grávidos”, fazem books, os exames são constantes e tem ultrassom todo mês (o que sou muito a favor). Sem contar o intenso debate #mãesdecesárea x #mãeodara (uma piadinha interna virtual).
As francesas me soam mais relaxadas (no bom sentido). Parece que elas continuam suas vidas como se a barriga, o filho, os projetos, fossem apenas mais um entre tantos, e não é que são mesmo? Elas têm muitos filhos, jovens, e não vivem suas vidas a partir deles, e sim “com” eles. Isso é muito bacana. Parece que vão vivendo sua vida e de repente, “opa, vou ali dar uma paridinha”. E vão se adaptando. Casais não deixam de viajar, de ir aos museus, de passear, namorar, nem mesmo de fumar na frente dos filhos! Não tem aquele papo “preciso viajar/investir na carreira/ tingir o cabelo de verde agora porque depois quando tiver filhos não posso”.
Na rua, por exemplo, é fácil identificar uma típica jovem mãe francesa. Ela anda com um carrinho de bebê e um bebê dentro, ao lado um irmãozinho de até dois anos e outra, ou duas, com diferença de idade de um ano, no máximo, correndo para alcançá-la. Visualize uma pata com seus patinhos. Madame Canard et ses petits. Ontem mesmo ajudei uma dessas a descer a escada do metrô com o carrinho (pouquíssimas estações têm escadas rolantes) enquanto dois irmãos eram incentivados, ranhentos, tropicando, a descer de mãos dadas as longas escadas.
Franceses preparam os filhos para a independência e ponto. Mas assim como admiro, também percebo exageros. A fila de patinhos, quero dizer, de irmãos, às vezes fica pra trás. Há mães que atravessam a rua e só gritam “venez! allez-y” (venham) sem nem olhar se são seguidas. Um dia quase corri pra pegar dois petits que não viram a mãe parar antes da faixa de pedestres e já iam atravessando um boulevar movimentadíssimo. Mas pararam antes que eu desse o vexame: aparentemente, as crianças entendem que também precisam se cuidar. Já levei sustos de chegar à taquicardia com essas crianças soltas nos mercados, nas ruas, nas calçadas. E, bem, não há notícias de sequestros nem de crianças perdidas ou atropeladas. Boba sou eu.
Outra diferença: o rigor. Não é à toa que todo ano surge um livro com títulos como “Crianças Francesas não Fazem Birra” ou “Crianças Francesas Comem de Tudo”. Sim, sim, bem no geralzão é isso mesmo. Há muito menos birra aqui. Também, ai de quem fizer. Não há pudor em dar uma gifle (bofetada) na cara da criança na frente de seja quem for. Já testemunhei pelo menos quatro vezes. A última foi traumática: pleno dia de sol, tudo lindo, um mundo de gente passeando no parque, à beira do Canal, o menino de uns 10 anos contraria o pai e anda de trotinette na contramão da ciclovia . O pai grita, ele repete. O pai desce da bicicleta, o chama e, na frente dos outros dois irmãos, e de mim, e da Nina e do Monsieur Lopes que passávamos, mete a mão com força na cara do menino. Eu tinha acabado de passar por eles e ouvi – ouvi! – o estalo do tapa. Foi traumático pra mim, imagina pra ele. Tapas na bunda e gritos também são constantes. As meninas da minha turma que trabalham como au-pair (babás que moram na casa das famílias), tanto as calorosas latinas quanto as mais neutras do Leste Europeu, não sabem lidar com o rigor dentro de casa também, com muitos tais-toi (cale-se) e regras rígidas para comer, dormir e até brincar.
Cometi generalizações; franceses e brasileiros, por favor, aceitem as boas e perdoem as que não têm a ver com a sua experiência pessoal, porque falo do geralzão mesmo, do que vejo no meu bairro e no meu dia a dia. Nada disso quer dizer, obviamente, que pais e mães franceses amem menos ou sejam frios com seus filhos. Nem que o calor humano e o festerê brasileiros garantam amor ou impeçam o amadurecimento da criança. Ou seja, isso aqui é só um relato grande demais.
Pra não dizer que não falei das flores
Nem tudo são flores em nossas viagens. Aliás, muito menos quando se viaja durante o inverno. Sabíamos que não seria possível apreciar um bom jardim de castelo na nossa viagem ao Loire; sem problema. Fomos atraídos mais pela arquitetura e história, acostumados que estamos às viagens em tempo frio. Mas em dois castelos tivemos que admitir: seria melhor ter deixado pra depois, na primavera (que acontece agora, em tese, mas ainda no frio). O Castelo – “Domínio” – de Villandry é muito lindo, mas seu principal atrativo é o jardim e a horta gigantescos, onde as flores são grandes como repolhos e os repolhos parecem enormes vitórias-régias. Já o Castelo de Cheverny tem um espaço gramado que deve se tornar uma linda toalha verde e macia de piquenique em dias de sol, mas tem como atração mais interessante o canil de cães de caça, que estava sendo reformado. Desolée.
Mesmo assim pudemos aproveitar o que nos “sobrou” dos dois castelos: histórias interessantes, obras de arte, visual magnifique.
Villandry é um château mas cá entre nós, está mais pra um palácio. É do tempo do Francisco I, no século XVI, de quem vou contar mais no post sobre os castelos de Amboise e o Clos Luce. Mas caiu em declínio até o século XVIII, quando foi remodelado por um marquês. São dessa época a maior parte dos móveis originais expostos ali.
Em 1906 o castelo foi comprado por um colecionador de artes espanhol, Joachim Carvallo, que modernizou os jardins, tornando-os a verdadeira obra de arte que são hoje (fiquei meio emburrada de ter que pagar o mesmo valor pela visita, para vê-los secos, cheirando a adubo e com pessoal plantando os canteiros).
A galeria de arte do castelo é muito boa, mas meio deprimente. Presta atenção na sequência de personagens dos quadros desta sala. Tudo muito escuro, triste, aquela coisa de culpa mea culpa.

Uma mulher agonizando, uma “cigana” meio bandida (é a descrição do quadro, nada contra ciganas muito pelo contrário), uma cabeça decepada, um anão e… um careca.
Finalizando: Villandry é ótimo por dentro mas a visita se justifica se você puder andar por fora dele. Nesse dia tivemos um clima tão louco, com sol, chuva de gelo que parecia neve, vento, depois sol de novo. Impossível pensar num piquenique, que na minha opinião é o melhor que se pode fazer num lugar como este.
Já Cheverny é um lugar mais leve, soltinho, iluminado. Também nele caberia mais o conceito de mansão que de castelo e foi nele que Hergé, autor do maior ídolo infantil aqui da França, o Tintin, se inspirou para criar o Château de Moulinsart que faz parte das tramas do heroi e tal. A família proprietária (que é a mesma, há seis séculos) mandou construir até um anexo com uma exposição sobre o Tintin, interativa, para crianças. Parece fofo, Nina entrou lá, gostou, mas eu não fui.
Este foi um castelo-domínio de caça; não à toa os cães de caça são uma das principais atração e, como eu já contei antes, perdemos de vê-los. Desolée, de novo. Por dentro, obras de arte, tapeçarias e móveis dos últimos três ou quatro séculos. Mas o tom predominante é o da caça ou, mais amplamente, da guerra, com muitas armas e uma disposição para duelos, imagino.
O salão de armas impressiona. O quarto do Rei, cômodo seguinte, também é inesquecível, de uma riqueza escandalosa e uma mistura de estampas de confundir o olhar. Foi neste castelo que entendi algo que vinha me incomodando: como pode as pessoas terem sido tão baixinhas? Pois até agora tinha visto camas minúsculas. Mas o guia de Cheverny explica que até o século XVII os nobres não dormiam deitados, e sim sentados, com medo de engolirem a própria língua. Deitados, só os mortos. Imagino que essa crendice tenha sido gerada por morte súbita de bebês, um mal que até hoje não tem muita explicação.
Outra informação interessante: não é porque o castelo tem um quarto do rei, que de fato algum rei tnha ali se hospedado. Naquele tempo reis e rainhas (não vamos esquecer das Médicis) cuidavam de seus reinos, quando não estavam em guerra, de olho no boi (como dizemos no Brasil). Viviam em longas viagens e por isso há tantos castelos pelo interior. Mas os nobres tinham que se preparar para a possibilidade de a comitiva real passar pela vizinhança e por isso se obrigavam a construir o quarto mais bonito, mais caprichado, mais espaçoso da casa para o Rei.

O marquês e seu cachorro preferido. Este quadro tem um detalhe interessante mas não vou dizer o que é. Clica ![]()
O quadro acima não é nada perto da imensa coleção de arte de Cheverny. Há até um retrato que se acredita ser de autoria de Ticiano e outro, de Rafael. Apesar disso, o château não tem ares de galeria: parece realmente um lugar onde as pessoas habitavam até poucos anos – e é isso mesmo. Fico devendo as fotos destes quadros porque as perdi no limbo entre Dropbox-usb-documentos etc.
Se eu não tivesse me esbaldado de natureza e flores em Amsterdam, estaria quase cortando os pulsos em rever estas fotos e sentir que perdi o melhor da festa. Mas sou uma turista mais “indoor” mesmo e curti bastante. Imagina na Copa! Quero dizer, na primavera.
Um post encravado
Faz tempo que estou ensaiando pra contar aqui minha experiência depilatória em Paris. Difícil encontrar o tom certo em qualquer relato que envolva virilha cavada. Mas vamos lá.
Primeiro, um prólogo para lembrar que os preços de serviços de beleza, aqui na França, são muito superiores aos do Brasil. Para não pagar o preço mais alto, os salões nos tentam com a proposta de “abonnement” ou “forfait“(sempre rio repetindo forfé?), isto é, você paga um plano pra ter o privilégio de ter desconto. Como depilação é um serviço, em princípio, mensal, então acabei entregando meu RIB (o número da conta do banco) para que o valor de 9 euros seja descontado mensalmente. Assim, cada pedaço de corpo depilado teve o preço reduzido de 15 euros para 4,50, em média. Isso mesmo: tá fresca na cidade e o bigodão buço cresceu? 15 eurekas. Mas se mora aqui e tem forfé, são 4,50. Meia-perna? Mesma coisa. Sovaco? Idem. Só varia o preço das partes baixas. E é a partir dali que o nível do papo econômico cai. Vamos ao relato.
Cheguei pela primeira vez no salão e não tinha ninguém na portaria. Um apito soou e fiquei esperando. Observando. Salinhas tipo baias, produtos de beleza em exposição na recepção, ok, tudo parecido com a rede que frequento em Curitiba. O cheiro acre de cera quente, os tons de rosa. Finalmente a recepcionista sai de uma das portinhas, a mais próxima da porta, e me recebe. Logo sai de lá uma cliente, que paga e vai embora. Hmmm, então a recepcionista também atende? Ok, aqui é um bairrinho mesmo, não é aquela agitação da região central. Tento me fazer entender. Como no Brasil, as depiladoras daqui encaram com a maior naturalidade o trabalho honesto que fazem e não têm o menor pudor em perguntar em alto e bom som o quão fundo queremos que a cera avance.
Eu não conhecia algumas expressões e ela, baixinha, cabelos e olhos negros, origem árabe provavelmente, ficou feliz em me explicar (nesse momento já tinha aparecido mais uma depiladora e duas clientes) os vários tipos de depilação de virilha – ”maillot normal“, “maillot échancré” (recuado), “maillot sexy” e “maillot integral“, ilustrando cada explicação com gestos; finalizou mostrando, numa viradinha discreta, que o termo para lá onde a luz não chega são les fesses, isto é, as duas bandas da bunda.
Até achei fácil. Estava com medo de repetir o vexame da minha primeira depilação no Brasil, quando a depiladora perguntou se eu queria “pubiana” e concordei porque, bem, a região ali se chama púbis, não? E a moça encheu tudo de cera.
A primeira experiência foi ok. A cera francesa é branca e eles fazem tudo aos pouquinhos. No Brasil, por exemplo, enchem as pernas de cera, parecendo que você está servindo de molde pra telha, e arrancam tudo de vez, inclusive a alma. Nas pernas são usadas as bandas de cera fria. Dói, claro.
Só ao pagar me dei conta que a moça não usou luvas.
Pano rápido, volto um mês depois. Outra moça me atende, novamente tem horário livre. Dessa vez é uma loirinha com jeito de alemã que não gosta de papo. Ainda bem que eu já sabia os termos todos. Mas o conceito de “sexy” é uma coisa relativa e ela fez um serviço mais discreto. Não quis discutir. Foi tudo bem até que o telefone tocou num momento muito delicado da, digamos, operação. Sabe quando você tem que dar uma levantada na pele pra cera não grudar em tudo e ficar de ladinho naquela situação totalmente vexamosa? Bem nessa hora o telefone tocou e ela saiu atender. A porta da minha baia ficou entreaberta. Era um telefonema para alguém que estava no fundo (opa) do salão. A loirinha foi levar o telefone… e nessa hora o apito da recepção tocou. Alguém entrou. Ela demorou eternos 10 segundos pra voltar.
Nessas horas é que eu queria ter fé, pra acreditar do fundo do coração que quem entrou não deu uma olhada pra dentro da minha salinha. Do meu ângulo era impossível saber.
Mas a curiosidade, se houve, foi castigada com uma visão do inferno.
A depiladora-recepcionista voltou, fechou a porta e terminou o serviço. Arrancou o último pedaço de cera e de dignidade. Só não recolocou as luvas, mas a essa altura, quem estava se importando?
Por aí: Amsterdam
Esse é um post-imagem que “conversa” com o mais recente da minha amiga Rita, do Estrada Anil, sobre bonecas, vitrines e muito mais.
Afogando em posts
E agora, termino os posts dos castelo ainda (pra ter uma continuidade, digamos, coerente – apesar do atraso) ou pulo pra Amsterdam?
=P
Planejamento de viagem by Les Lopes
Amanhã cedo viajamos pra Amsterdam. O plano inicial incluía Alemanha e Suécia mas baixamos a bola, porque tava ficando caro demais. A gente ouve muito falar que é barato viajar pela Europa de trem e daí descobre que barato mesmo é de avião, mas aí não tem linha-trajeto das companhias mais baratas entre algumas capitais e, bem, ainda tem a hospedagem. E ainda passamos pelo baque de ter 900 EUROS descontados de nosso cartão de crédito pela seguradora da locação de carro em Amboise, no circuito dos castelos – lembram que eu contei que um cidadão arranhou o nosso carro? Então. No-ve-cen-tos-eu-ros. Um choque para qualquer economia terceiromundista, que dirá a nossa conta. Pedimos o reembolso, claro, e estamos aguardando a tramitação (mesmo porque tínhamos pago uma locação que dizia garantir franquia zero). E temos que aguentar Monsieur Lopes dizendo que em dia de museu, não se come e vice-versa.
Vamos à parte boa?
Aqui em casa gostamos de planejar viagens: mas é um gosto recente, um hobby ainda em desenvolvimento. Temos guias de quase todas as cidades que conhecemos (exceção de Edimburgo, pra onde fomos quase completamente no escuro). Então ontem fui comprar um guia de Amsterdam e o melhor custo x benefício era da editora Voir, que é DK também. E tinta para o cabelo, porque esqueci que hoje seria feriado. =P
No Google Maps, marcamos a distância do nosso hotel aos lugares mais interessantes.
No youtube, encontramos uma série de reportagens sobre a Holanda, feita pela Record. Será que os bispos sabem que é o país mais liberal do mundo, o primeiro do mundo a oficializar o casamento gay, onde as drogas são toleradas e a prostituição, legalizada? Ou algum editor mais esperto só disse “libera a verba, pastor, vamos lá falar de diques, tamancos de madeira e moinhos de vento”?
Bem, a viagem começou a ser planejada quando ficamos sabendo que o Museu Van Gogh reabriu. Então será o ponto alto, além da Casa Anne Frank, a Casa Rembrandt, o Rijskmuseum, o Hermitage, além de igrejas e feiras nos caminhos, o bairro da prostituição em janelas (Red Light District) ao qual iremos, eu e Monsieur Lopes, nos revezando porque é too much information pros 8 anos da Nina. Também planejamos um dia de passeio por Keukenhoffen, o baita jardinzão de tulipas.
Não compramos passes de museus, então entraremos em fila – é que eu não sei se minha carteira de jornalista será válida para a Holanda, então não arriscaria comprar algo que pode sair de graça.
Hoje vamos fechar o dia vendo os documentários “O Poder da Arte” sobre Rembrandt e Van Gogh.
Gosto de saber quem pisou antes de mim naqueles lugares e sob quais condições. Adoro conhecer a história de cada cidade – apesar de esquecê-la já no caminho de volta. Adoro ler os blogs, os pontos de vista diferentes de cada turista e não me incomodo em fazer turistada, não. Claro que gostaria de ser vip e exclusiva em cada lugar mas parto do princípio de que se há tanta gente indo pra lá é porque deve ser bom. Sim, pode me chamar de maria-vai-com-as-outras. Poucas vezes deu errado até hoje.
Apesar de toda a expectativa e a tentativa de planejamento, espero sempre ser surpreendida. Às vezes a gente se envolve pelo clima ou “energia” do lugar, como quando me senti mal no Castelo de Sant’Angelo, em Roma, e só depois tive a informação que naquele local as mulheres acusadas de bruxaria eram torturadas e queimadas vivas. E em alguns lugares a informação simplesmente não te pega, não te emociona, não diz nada. Daí o negócio é partir pra fazer aquela a “sua” experiência pessoal.
Ficaremos seis dias em Amsterdam. Vai dar também pra observar a cidade, o clima e até sentir o tempo passar, passeando ou sentados à beira de algum canal. Depois de ter cumprido a rota do dia, claro.
PS: Este post é uma provocação à Luciana que ficaria louca viajando comigo
Vizinhança
Naqueles prédios longos, que ocupam quadras, típicos da reforma do Barão de Haussman, há um comércio espremido (pois Paris é uma cidade pequena e superpovoada) e que esconde o aspecto residencial de cada quartier. Portas imensas, bem cuidadas ou não, com fechaduras grandes, puxadores rococós, pintadas, coloridas, em madeira de lei centenária, enfim: elas podem esconder pardieiros ou residências luxuosas. A porta pesada da entrada do meu prédio abre-se, depois de se digitar o código no interfone, para um pátio quadrado com uma série de caixas de correio à direita e diversas bicicletas estacionadas.
As caixas de correios contêm os nomes dos moradores dos apartamentos. Não há números nem o andar respectivo, o que dificulta bastante a vida de quem chega pela primeira vez. Sei que existe uma pessoa que limpa, pelo menos uma vez por semana, as escadas e o pátio, além de levar os latões de lixo – até hoje não sei se estou separando os recicláveis direito – para fora, toda noite. Parece que se trata de uma senhora portuguesa, mas não sabemos se ela é uma concierge, isto é, se mora aqui como zeladora. O prédio não tem elevadores. São seis andares; ficamos no segundo.
Uma vizinha do primeiro andar, cujas janelas são a vista da minha sala, tem uma cozinha digna de um Cèzanne. Seu apartamento ocupa o equivalente a três do meu andar; imagino que seja o tamanho do projeto original do prédio (que data do século XIX), porque o meu tem portas que não dão pra lugar nenhum, isto é, ele claramente foi dividido e transformado num apartamento pequeno.
Não sou voyer nem gosto de espiar os vizinhos mas é difícil não passar os olhos pelas janelas e não notar a beleza cenográfica deste apartamento. L’appartement de Madame. Como eu dizia, a cozinha é uma pintura impressionista. Nela sempre há pêssegos ou ervas ou alfaces gigantes e coloridos, distribuídos sobre a banca de madeira que fica junto ao fogão de placas cerâmicas. Na sala ao lado ela recebe pessoas para jogar o que eu imagino que seja uma espécie de jogo de adivinhação, como um tarô ou búzios. A sala na qual recebe as supostas clientes tem a mesa, uma estante com um busto de algum poeta ou filósofo e centenas de livros. Cadernos de receitas, toalhas coloridas, numa mistura louca de estampas, e a penumbra, sempre a penumbra. Aqui não há luz direta. Meu apartamento só é claro na cozinha e tivemos que comprar abajures para não nos sentirmos sempre no escuro. De alguma forma ela mantém esse cenário sempre perfeito. Nunca a vi limpar ou varrer e quando a mesa está posta, tem pratos e taças de cores e formatos diferentes, tudo muito lindo, vibrante, clássico – cinematográfico, mesmo.
No meu andar, no apartamento da direita, mora um casal de jovens, acho – não tenho certeza. Le Jeune Couple. Numa das primeiras noites em Paris, levantei para tomar água, abri a cortina para observar o céu e vi um homem nu muito branco, na janela. Levei um susto, me escondi, mas ora, não resisti a uma segunda olhada. Era um manequim, daqueles de alfaiataria. Dias depois, liguei o computador na cozinha para que a Nina conversasse com a vó e claro que a piada foi justamente que “mamãe achou que era um homem pelado” e quando Nina olhou para a janela, apontando para a vó onde estaria o manequim, no apartamento vizinho, passou diante de nós… um homem pelado! De verdade, desta vez.
Do lado esquerdo veio nosso primeiro contato pessoal com um morador. Le Parisien. E não foi nada agradável, como já relatei. Desde que resolvemos o problema do aquecedor, no entanto, o vimos somente uma vez, quando tivemos de aceitar, constrangidos, que ele nos ajudasse a carregar o carrinho de compras pela escada. Também fez questão de nos dar um vídeo de seu trabalho; aparentemente o moço grosseiro é videomaker. Ok, entendemos que estamos “de bem” agora. Desde que não o incomodemos de novo, que aí ele não terá problema nenhum em fazer alguma nova ameaça, bien sûr.
Há um senhor, velhinho, muito mal humorado, que não diz bonjour nem bonsoir (quem sabe um curitibano) e que sobe as escadas muito sofridamente. E pelo jeito, ele mora bem no alto. Fantasio que ele seja o pai de outro senhor, mais novo, mas beirando os 50, que sai todos os dias com seu cachorrinho fofo peludo e aparentemente, também velhinho. E o dono se recusa a carregar o cachorro pelas escadas. Então a cada degrau ele encoraja o bichinho: “allez-y, il faut monter” (vamos, tem que subir). Les Trois Vieux.
Um casal típico parisiense acaba de ter um bebê. Levam, pai ou mãe, indistintamente, andares acima, o bebê amarradinho ao corpo, num sling moderno, com alças. La famille. (a família está começando: aqui eles têm 3 filhos, em média, segundo o DataLaVie)
E em algum lugar desse prédio mora o Jeune Parisien. Ele desce as escadas correndo, fazendo estardalhaço desde sabe-se lá que andar. Desde o topo, pensando bem: ele certamente paira acima de nós. O rapazinho bonito, simpático (!), educado, está sempre atrasado para ir a algum lugar muito cool (leia com sotaque francês) e nos atropela no caminho, com mil pardons e desolés. Ao chegar na calçada, tira os sapatos, amarra um ao outro pelos cadarços e também no cinto da calça e mete os patins nos pés. Sai como um raio por Paris: em cinco segundos ele deixa só a lembrança de sua passagem alegre e urgente.
As fotos que não faço
Passando pela calçada ao lado da Place de la Republique – aquela praça que está em eterna reforma, imagina na Copa.
Três operários da Prefeitura, certamente terceirizados, aparentemente um português e dois de algum país do Leste Europeu, deixam pairar no ar, por cinco segundos, a britadeira e a serradeira elétrica de granito, para deixar passar uma linda negra de cabelos rasta longos e pernas fortes expostas pelo shortinho jeans.
Mais para a frente, uma família de sem-teto reunida para o almoço: marmitas, baguettes, restos de mac-lanches. Sentados sobre dezenas de colchões e edredons, encostados nos tapumes da obra que protegem os futuros postos de energia dos carros elétricos que circulam na cidade, eles dão um tempo nas atividades de pedintes, rindo e contando histórias. Uma das crianças, entre seis e oito anos, dorme num colchão só para ela, de barriga e braços para cima, ao sol.
Sentado num amontoado de restos dos granitos cortados pelos operários, um homem negro, forte, dá um sorriso aberto com os dentes mais brancos que já vi enquanto deixa que a filha de sua amiga, uma menina com ares de ciganinha de carnaval, de tranças e saia rodada, pinte seus olhos com a sombra cor-de-rosa-choque de um estojinho de maquiagem.
Todos riem, faz sol, capturo para sempre essas cenas e continuo meu caminho pra casa.
Actualités
Nem sei por onde começo. Pelo compromisso: a partir de amanhã tentarei uma nova rotina de vida, fazendo exercício logo cedo, depois de despachar a Nina pra escola. Assim devo conseguir mais tempo para o blog e pra estudar francês.
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Bem… amanhã não dá porque preciso voltar pela 986773946ª vez à Prefecture de Police. A boa notícia é que meus documentos finalmente foram aceitos. Houve algum drama, claro. Como havia sido avisado no capítulo anterior, eu só poderia voltar lá depois que o Monsieur Lopes tivesse recebido sua Carte de Sèjour, o que demorou muito além do normal porque o OFI esqueceu de enviar a convocação pelo correio! Mas quando a demora ficou mais do que perturbadora ele foi lá, deram-se conta do erro (sem admitir, claro) e o exame médico foi marcado e estava tudo bem, claro, e carimbaram o visto na hora. Já comigo, que sofro da síndrome do pequeno poder (sofro com ela, bien sûr), não foi simples assim. Meu comprovante de endereço não foi aceito – poderia ser a) conta de luz b) conta de gás c) recibo de aluguel d) contrato de aluguel. As alternativas a e b são impossíveis porque pagamos tudo numa conta só, no nome do dono do apartamento; a c não foi aceita porque o recibo é feito à mão. O contrato de aluguel tinha data de setembro – claro, fechamos em setembro, pra começar a valer de dezembro a dezembro! – e foi rejeitado por isso, mas a Paris Attitude rapidamente nos enviou um certificado atualizando e confirmando a validade do contrato. Que sessão. Sem contar que na primeira vez cometi dois ERROS imperdoáveis: assinei o cartão com foto em azul, em vez de preto, e ainda por cima colei as fotos que foram lindamente riscadas ali, na hora. Finesse define. Mas no dia seguinte voltei com tudo certinho. Daí, em vez de a moça me dar o papel comprovando que meus documentos estão em tramitação, quer dizer, tá tudo certo, só falta alguém carimbar e tal, ela avisou que iriam me ligar ainda naquela semana pra pegar o recepissé, que é basicamente isso: um comprovante. Mas alguém ligou? Claro que não. Então amanhã vou lá vestida com as armas de Jorge e as sandálias da humildade.
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A primavera chegou. De repente – na verdade, a primavera chegou e-xa-ta-men-te às duas da madrugada do domingo, quando a temperatura subiu e as flores explodiram de dentro das árvores. Foi incrível. Num sábado saímos passear e quase congelamos; no domingo, passamos calor e fizemos como os europeus de filme: deitamos (por pouco tempo, desajeitados) na grama do sensacional Parc de la Vilette pra dar uma lagarteada.
Os dias de primavera estão cada vez mais longos. O sol se põe depois das oito da noite. Este é outro motivo pra mudar a rotina: em vez de pegar a Nina na escola e vir pra casa, pretendo levá-la para passear mais pelas ruas e parques da cidade. Só não sei ainda como administrar a hora da tarefa.
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E falando nisso: hoje recebemos o boletim.
Não vou traduzir nem o texto, nem meu orgulho – volto ao assunto “escola”em outro post. E conseguiu 9,5 em Matemática.
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Faltam 4 castelos! Alguém ainda aguenta?
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UPDATE: habemus recepissé! Agora falta pouco pra estada em Paris tornar-se legal de fato: vão me convocar (espero) pra um exame médico e depois, me entregar o Titre de Sèjour. O recepissé vale até agosto e agora posso viajar pelos países que fazem parte da convenção Shengen. \o/
Alakabula, mexikabula
Opa, acho que me confundi na trilha sonora. Mas você entendeu. O terceiro dia no Vale do Loire foi um verdadeiro dia de princesa. Quando começamos a planejar essa viagem Nina viu no guia – “Castelo d’Ussé: o castelo da Bela Adormecida” – e pronto, virou passagem obrigatória. Li meio por cima “castelo-inspiração-Bela-Adormecida” e pensei putz, que mico. Achei que fosse um programa fake e chato, ainda mais porque era o mais distante do mapa dos arredores de Amboise, nossa base. Uns 80 quilômetros. Imagina, achar 80 km longe! É metade da distância de uma viagenzinha tipo Curitiba-Ponta Grossa. Mas na Europa a gente esquece o que é isso de distâncias continentais. Dá dois pulinhos e tá no país do lado. Dá mais um, tá numa região de vinho, gente, gastronomia e tudo o mais, completamente diferentes.
As estradas da região do Loire são tranquilas. Quando não estão à beira do rio, são assim, bucólicas, às vezes tortuosas, as pistas, simples – mas não há movimento, me parece, para grandes obras. Passa-se ao lado de vilas, cidadezinhas, e de repente um resto de castelo, o traçado de um vinhedo ou umas vaquinhas franjudas aparecem pra nos encantar. Pena que minha câmera estava quase sem bateria. Sim, só descobri isso no meio da viagem. E o celular estava servindo de guia – fica a dica pra quem for viajar pelo mundo: o melhor GPS é o Google Maps do iPhone. Mesmo quando você se perde em estradas quase de barro e distantes, o bichinho te mantém firme e avisa: “refazendo a rota”. Ufa.
O caminho para Ussé, uma vila perdida no meio do que deve ser, no verão, um mar de uvas verdes, roxas e rosadas, é lindo. Mesmo seco e frio. Pena que não pude registrar muito. Mas não perdi o mais legal e diferente de tudo: as caves, verdadeiras cavernas de Ali Babá guardando sabe-se lá que tesouros em garrafas. Ao lado delas, casinhas fechadas que nos tempos de sol recebem turistas para aproveitar o vinho retirado dessas minas, gelado, na sombra de plátanos centenários. Só esse cenário já teria valido o passeio.
Há uma floresta no caminho, com aviso de “cuidado, veadinhos” – ou alces, enfim. Esses que foram quase dizimados pela nobreza. Quando finalmente chegamos a Ussé, o encanto. A vila pode abrigar qualquer princesa Disney. Mas não é um parque temático: o castelo e as redondezas têm uma história interessante, apesar de não ter abrigado nenhuma madrasta má da família Médici, como os anteriores que visitamos. A construção é parte medieval – a base do castelo é do século XII – e parte renascentista. Até relativamente pouco tempo atrás, começo do século XX, nobres ainda moravam ali. É interessantíssimo perceber que o Castelo foi construído no meio do nada verde e, a partir dele, surgiu a vila dos plebeus empregados, até virarem pequenas cidades com vida própria. Imagino que cada família de Ussé tenha uma história para contar sobre os antigos donos dos castelos. “Meu avô limpava os sapatos do duque”; “meu tio foi amante da baronesa” etc.
Tem torres, como todos os outros, então por que esse negócio de ser castelo da Bela Adormecida? Porque em algum momento da história (perdi o folheto que dizia quando) o escritor Charles Perrault hospedou-se em Ussé e nele se inspirou para criar A Bela Adormecida do Bosque. Os atuais donos aproveitam essa fama para faturar, claro, mas o fazem de maneira graciosa: no castelo há manequins com roupas originais antigas, para demonstrar como era a vida no castelo, no dia a dia, mas no último andar, depois da subida à torre mais alta, há uma representação, também com bonecos em tamanho de gente real, da história original da Bela. A música de fundo, no entanto, é da animação da Disney. São meio toscos, meio anos 50 demais, mas a paisagem e a beleza do castelo compensam. E, bem, é um castelo de verdade, né?

Uma das salas com móveis, objetos e manequins com roupas originais que escaparam dos revolucionários de 1789

E a gente se sente “espiando” a história da Bela Adormecida. Ok, pelo menos as crianças se sentem assim.
A visita a Ussé, portanto, acabou sendo um programa surpreendente. Pode-se dizer que pegamos amor pelo castelinho, tão bem cuidado, com muitas informações de época. De fato, não é difícil imaginar que aqui o povoado “dorme”, ou seja, se mantém quase intocado, há cem anos. O que se vê neste post é muito pouco no que diz respeito ao número de quartos, salas, a cozinha e o “domínio”, como eles chamam – que engloba a vila, o bosque, os jardins, os passeios feitos durante o verão. E imagino que programa maravilhoso deve ser voltar àquelas caves, quando abertas ao público.










































