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A foto

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Foi em janeiro, um domingo de sol forte e céu limpo e, ao mesmo tempo, muito frio. Antes da neve. Foi o primeiro passeio bem do ladinho do Sena. Lembro da Nina voando de trotinette, a surpresa de descobrir a avenida marginal fechada para uso somente de pedestres, que, milhares, seguiam como numa romaria em direção ao sol e à Torre, lá longe. Depois de passar por baixo desta que é a mais linda ponte do mundo, me virei e quis fazer uma foto em que o sol não batesse na lente. Vi os noivos, pensei, gente, como pode essa noiva de braços de fora nesse frio? E deixei que Nina e Monsieur Lopes seguissem sem mim (nunca olham pra trás) para registrar esse momento em que eles estariam quase sozinhos (não repara na pessoa com jeito de serial killer do lado esquerdo, eu disse não repara!). É a lembrança de um dia perfeito. E agora esta imagem foi selecionada no concurso do Conexão Paris (link ali do ladinho) como uma das três melhores a representar as pontes da cidade. Fiquei feliz.

Plataforma eleitoral

Companheira Nina não pôde se candidatar ao cargo de delegada da escola, para representar a categoria dos alunos junto à Mairie, mas faz questão de deixar registrado seu voto no candidato que incluir suas próprias três propostas, a saber:

1) Que as saídas da escola incluam a Opéra;

2) Que as crianças tenham o direito de escolher o menu do almoço (com isso, seria o fim do peixe às sextas-feiras);

3) Pelo direito de mascar chicletes na escola.

 

 

Encaixotando Tina

Chego no salão onde já sou habituée e o Monsieur José (fala-se josê), o cabeleireiro israelense que é a fuça do Stephen Rea me saúda, deixando o “madame” de lado pela primeira vez: – Cristina, você viu? Vamos para o Brasil em junho!

Foi a primeira manifestação sobre a classificação da França na Copa. E única. Diz que no interior houve mais empolgação.

Em seguida houve uma longa conversa da qual só entendi um pouco sobre a feiúra, a competência, a estupidez e a conta bancária do Ribery, não necessariamente nessa ordem, entre os clientes. Nesse pequeno salão de bairro todos os clientes são conhecidos e as conversas só giram em torno da crise, de política e viagens.

A cabeleireira me conta que é espanhola. “Sério? Nossa, mas você veio morar cedo aqui, fala francês perfeitamente!” e ela “sim, nasci aqui”. Não me acostumo com isso.

***

Quando você faz a viagem Brasil-França, tem direito a duas malas de 32 kg. A passagem de volta dá direito igual. Só que a passagem de volta não vale nada se você vem passar um ano: nunca vou entender o porquê disso, ou do fato que passagens só de ida ou só de volta são tremendamente (até 3 vezes!) mais caras que as de trecho fechado, ida e volta. Enfim. Quando você compra a passagem França-Brasil, o peso das bagagens é menor. Temos direito a duas malas de 23 kg. Como resolver a equação: vim com 9 kg a mais e volto com tudo o que foi adquirido durante o ano (roupas de frio mais elaboradas, livros, brinquedos, até mesmo uma cafeteira italiana)?

Simples: explorando as visitas. Minha irmã viajou a Paris com uma mala de 32 kg para ela e o sobrinho e voltou para o Brasil com as quatro malas a que tinha direito lotadas até os 32 kg. Mesma coisa um amigo, que levou uma mala extra com as panelas sem alça que compramos numa liquidação, além de livros – aqueles de arte, comprados por uma bagatela, e que pesam mais que tijolos. Mas resistir, quem há de?

***

Compramos dois quadros de um artista francês. São reproduções numeradas, em tela: não se pode dizer que sejam investimento em arte, mas também não dá pra tirar da moldura e carregar em tubo, arriscando estragá-las nesse procedimento. Então ficamos com o mico de embalá-los. Passamos por quartiers de Paris que nem imaginávamos existir – no caminho encontramos a última Mona Lisait, uma livraria de arte que foi uma grande rede, mas teve liquidação judicial –  para comprar uma caixa onde o maior coubesse. Conseguimos a caixa, grande o bastante para os quadros e ainda para incluir um tubo com um cartaz da Copa de 82 (eh) e outro de um restaurante típico de Lyon. Vai nos faltar parede, eu sei.

Só que fomos conferir as medidas para enviar a caixa como bagagem e, voilà, claro que era grande demais. Então cortamos, serramos, colamos, suamos, quase tive uma crise de choro, os durex não colavam bem, ou colavam o cabelo e a poeria do chão junto, enchemos a sala de restos de cartolina, até que conseguimos vencer o monstro da caixa. Fiz até uma foto. Foi quando percebi que deixamos o tubo dos cartazes de fora.

***

Nina volta da escola animada com as notas do “controle” (as provinhas semanais). “Foi muito bizarro! Na minha mesa, o Angelou tirou 6 de 10, a Faustine, 7 de 10, eu tirei 8 de 10 e a Ludvine, 9 de 10! Em ordem!”. Toda manhã, enquanto ela toma seu leite, conferimos a previsão de tempo no aplicativo do celular, em 10 capitais diferentes, e ela vai me dizendo qual é o país correspondente, porque estão na fase de decorar as capitais da Europa. Como se fosse ser assim, e aqui, o resto da vida.

Até ontem. O animateur (responsável pelas aulas extras) informou que haveria uma eleição para delegados da escola – alunos que vão representar as crianças no conselho municipal, participam das reuniões na Mairie, levam reivindicações dos colegas aos adultos. Nina imediatamente levantou e se candidatou; foi a única de sua sala. Aí o animateur disse que a eleição acontecerá no dia 4 de dezembro. E ela se deu conta de que nessa data já vai estar no Brasil. Também vai perder as aulas de canoagem no Canal Saint Martin, no próximo verão. Ontem, a fichinha caiu.

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Daí eu olho para esta foto e penso que funciona bem como metáfora desse momento.

 

Abraço aos envolvidos

Adélia, a gurua mais paciente de Paris; Amanda, que foi e voltou e, não adianta, é uma parisienne; Aline, a mais delicada; Alê, exuberante, vento nos cabelos (quero te ver de novo!) Maitê e Luci Loup-Loup, as maluquinhas que adoram papo de casal de meia-idade e frango ao vinho;  Mari S., que só conheci por uma tarde e agora é parceira do feissy ;) Cristiane, que alegria te reencontrar aqui, Ana Claudia, mais uma apaixonada e não só por Paris; Renata, a mais linda segundo a Nina. Marta & Gui, me aguardem, sócios. Fábio, Karem e uma tarde inesquecível (assim como o tamanho da torta) no Cafe de Flore. Dary e Nicole, sempre teremos Paris! Larissa J., que a gente continue se reencontrando e se divertindo; Ana Clara, generosa.  Lucas e Fernando, como passar pela boulangerie sem lembrar de vocês? Ferzinha e Luciano, sa-bem-tu-do e são as melhores companhias. Lud e Leo, vivendo um sonho e a gente indo junto. A ala feminazi com Iara & Daniel, Renata Delegata, Luciana Brabuleta: quanto riso, oh, quanta alegria. Helê, foi um encontro de almas, vamos combinar. Maria João, sua encantadora de crianças, saudade. Grazi! Nem acredito que setembro chegou e passou.

Update: abraço especial pra Claudia Januário e sua família, que nos deram a acolhida mais estilosa e amável da temporada (e minha memória, junto com a pressa de fechar um post, me fez passar vexame e não citar! Imperdoável. Mas é que Madame Clodiá está me devendo um café, ainda).

Foram muitas tardes de cafés, abraços e conversas, principalmente sobre Paris. E tudo o mais.

 

 

PS1 – E ainda desencontrei de Carmem e Ana, que passaram pela minha rua e eu não estava em casa. Letícia e Alice, Kellen e Dora: pena que nossas rotas de férias foram diferentes.)

 PS2- Se tiver esquecido alguém, é culpa do frio que chegou com tudo.

Escolas

É tempo de matrículas nas escolas particulares brasileiras. Peço à minha mãe que ligue para a escola onde Nina estudou até o 2o ano, antes de vir para a França, para saber como ela pode retornar, agora, ao 4o ano. Ao telefone, a coordenadora já se animou ao lembrar da Nina e garantiu que ela seria bem-vinda de volta.

No dia seguinte minha mãe confirmou sua matrícula. A coordenadora viu o boletim francês dos dois anos letivos que Nina fez (2/3 do equivalente ao 3o ano e menos de dois meses do equivalente ao 4o ano) e aceitou toda a documentação, sem problemas. Só quis saber se Nina está “cabeluda” e se cresceu muito.

<3

Enquanto isso, aqui do outro lado do mar, Nina viajou a Lyon para acompanhar o pai em viagem de trabalho. Durante a sexta-feira recebi dois avisos, por e-mail, da Mairie (prefeitura regional) do nosso arrondissement (bairro): haverá greve dos animateurs (pessoas que entretêm as crianças nas atividades extracurriculares) e dos funcionários de cantina na terça-feira e, na quarta, por outro lado, haverá aula com a professora regente direto até as 16h30. Isso porque há um aviso de greve dos professores para a quinta-feira.

Porém, a temida professora da Nina, apesar de ter sido avisada de nossa viagem, não sabe que recebo estas notícias e avisos por e-mail e veio pessoalmente deixar um recado (uma cartinha) na nossa caixa de correios. Esse tipo de coisa ainda me tira o fôlego.

 

 

 

Na cabeça

Nina pegou piolho na escola.

Coçou, coçou a cabeça durante as férias; achei que fosse alergia ao shampoo; troquei de marca. Só minha irmã, que veio nos visitar, reconheceu as lêndeas na cabecinha. Da mesma cor dos cabelos. Bem, foi tragédia anunciada, porque a colega vizinha de mesa da Nina estava com piolho – e por isso mandei-a, na última semana, sempre de cabelos presos. Mas passou o tempo e só no meio das vacances veio a coçação. Agora passou.

 

***

Hoje fui ao salão. Aqui os homens fazem escova. Fui pelo menos dez vezes tingir ou cortar os cabelos e sempre tinha um homem sendo escovado. Sem qualquer vergonha. E não estou falando dos metrossexuais das páginas de moda, são senhores, velhos ou jovens, que gostam de sair do salão com serviço completo.

 

***

Tinjo os cabelos religiosamente. Às vezes em casa, às vezes no salão. Minha mãe veio aqui e ficou doida pela quantidade de mulheres jovens que assumem cedo os cabelos brancos. Aí voltou pro Brasil e está deixando seus brancos crescerem, também (no caso das mulheres jovens, acho que envelhece e não gosto, por isso continuo com a tinta até a hora de jogar os bets).

 

#99, pra constar

Este é o post número 99.

Até ir embora, terei feito pelo menos cem posts em um ano. Não é a melhor média mas também não é um vexame, convenhamos.

Agora estou cumprindo os últimos dias da minha vida de guia turística, ainda com a família – nunca Os Lopes e agregados viajaram tanto a Paris como neste século ano.

A partir de segunda-feira a Nina volta às aulas, depois das férias de Todos os Santos (15 dias) até a véspera da viagem. Eu também ainda quero aproveitar as últimas semanas na escola de francês.

Últimos, últimas.

Agora é pollyanar e viver lembrando a cada minuto o privilégio de um mês inteiro em Paris. Da primeira vez que vim pra cá, passei só três dias (porque o avião cancelado da Tam me roubou um dia inteiro). É hora de conhecer os museus que ainda não visitei e fazer alguns programas adiados. Coisa pouca: um crepe num lugar recomendado por uma amiga e que eu ~tenho~ que experimentar; um café simpático por onde sempre passo e onde nunca entrei, uma moedinha pra cantora do metrô. As obrigações: desfazer os planos de celular, de depilação, encaminhar as coisas com o proprietário do apartamento.

Estranho é imaginar a Rue de Lancry sem nossas idas e vindas, repentinamente, numa manhã de inverno, sem nossos bonjour ao vento, como os cabelos da Nina. Mas é assim a cidade, como a vida: continua, sem a gente.

 

 

La Seine


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Se um dia meu coração

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for consultado

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Para saber se andou errado

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Será difícil negar

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Meu coração tem mania de amor

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Amor não é fácil de achar

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A marca dos meus desenganos ficou,

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ficou

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Só um amor pode apagar

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Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar.

*Paulinho da Viola 

Dans ma rue

Se eu ganhasse um euro pra cada turista que vi dando um euro para um mendigo com cachorrinho ou gatinho nas ruas de Paris, estaria rica. São muitos os mendigos (é a crise) e entre eles se destacam mais aqueles que, a despeito de chuva, neve ou calor sufocante, carregam consigo seus animaizinhos de estimação, todos de pêlos bem tratados, aconchegados ao colo ou em almofadas confortáveis, latinha de ração ao lado da placa em francês sôfrego, mas sempre no plural: “por favor ajude-nos a comer”. Sempre muito bem tratados, mimados, fofinhos. Não foram poucas as amigas que me visitaram e admitiram ter deixado um bom montante não previsto no orçamento da viagem para os pets – não para os moradores de rua.

Nada contra. Pede dinheiro quem precisa, dá quem pode.

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A moça e seu gatinho impecavelmente branco.

Pois é este o apelo. “Nossa, como os mendigos de Paris cuidam bem de seus bichinhos”. Acho bem legal, mesmo, e aqui também acontece aquela situação já corriqueira em albergues que recolhem os moradores de rua no frio: os bichos vão junto, porque eles se recusam a deixar seus animaizinhos na rua.

Mas peraí. Não existem vira-latas em Paris. Gatos sem dono, só os vi em cemitérios (estranho que são bem gordinhos). Gente revirando lixo há de todos os tipos, mas nenhum cachorro. Em quase um ano nunca vi um vira-lata sem dono. Aí imagino (e pra descobrir o que acontece, só me aprofundando mais do que tenho condição, hoje): os mendigos daqui descobriram que os animais são um diferencial rentável e usam seus chamarizes peludos para concorrer com as famílias numerosas de alguns moradores ou a idade avançada de outros. É uma relação bem diferente daquela dos mendigos brasileiros, que têm nos amigos felinos ou caninos seus companheiros de desgraça.

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Confortável, não? Pro cachorro, claro.

Gostaria de fazer uma pesquisa entre esses moradores, se eu entendesse o que eles falam (porque ou é aquele francês bem de rua, ou é outra língua incompreensível – muitos são estrangeiros) para saber de onde surgem esses bichos. Imagino que exista um comércio paralelo de gatos e cachorros pois eles não estão por aí dando sopa nas ruas para serem adotados. Tanto é que a maioria usa coleira e nunca se distancia do dono.

Aí a coisa começa a complicar e a ficar menos fofa, não?

Principalmente se você pára por alguns minutos, como eu já fiz, e observa que os donos de animais ganham mais dinheiro que as mães com filhos. Ok, não vamos julgar quem faz o bem sem olhar a quem. Mas há toda uma estratégia de rua interessante para se analisar de um ponto de vista sociológico. Crianças ranhentas e mães suplicantes repelem. Cachorrinhos fofos atraem.

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Família de moradores da Place de la République

Refletindo sobre isso, confesso que a simpatia dos donos de cães e gatos tem me irritado bastante. Por mais que amem seus bichinhos (e não duvido disso), hoje me causam repulsa, talvez por seus sorrisos mansos à espera de que seu animal seja atraente como ele não consegue ser; talvez porque sabem que não se pode esperar mais solidariedade pelo drama unicamente humano. São calculistas. Na verdade, admiráveis pelo raciocínio.

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Pedinte muçulmana, uma estátua impassível.

Da minha observação diária, creio que as pessoas que recebem menos moedas e olhares são as mulheres muçulmanas, como esta que foi prontamente expulsa por um policial em plena Champs Elysées (logo surgiram outras). São estátuas impassíveis, cobertas dos pés à cabeça, e se causam espanto entre turistas, também são tratadas mais como um obstáculo a ser evitado, como os poucos deficientes físicos que se expõem pelas ruas.

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Ela levou um chute no ombro. Ninguém fez nada.

E já que entrei nesse assunto, não posso deixar de contar que aqui em Paris encontrei muitos daqueles vagabundos de filmes dos anos 40, os moradores de rua “românticos”, bêbados que não fazem mal para ninguém, a não ser para eles mesmos e suas famílias, claro. São muitos estrangeiros que devem ter vindo buscar a boêmia em Paris e que dormem agarrados às suas garrafas de cerveja ou vinho; caras-de-pau, lotam as calçadas em frente aos centros sociais que os acolhem, onde tomam banho, são aconselhados a voltar de onde vieram ou arranjar serviço pesado… e acabam reunidos em bandos contando piadas em línguas extraordinárias, até dormir e acordar para pedir dinheiro aos passantes, sem disfarces, sem discursos, pra beber, mesmo.

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A violinista do Leste Europeu, cão e gato

Essa senhorinha da foto começou a pedir dinheiro na rua em pleno inverno, com seu marido. Eles são péssimos tocadores desse tipo de rabeca ou violino que trouxeram de algum país do Leste Europeu (imagino, pelo som de sua conversa). Causavam muita pena mas recebiam pouquíssimo dinheiro, em frente ao Centre Pompidou, seu ponto – um local onde havia, então, forte concorrência de donos de gatos e cachorros. Logo mudaram de estratégia: em vez de tocarem juntos, arranjaram cada um, um bichinho. Um cachorro e um gato. E passaram a tocar sozinhos, cada um com seu bicho, em lados opostos da rua. Acho que aumentaram bem a renda. Neste dia ela estava com os dois bichinhos, que se divertiam, brigando, presos às coleiras, enfeitados com grosseiras flores de tecido. Nina reconheceu a velhinha de passeios anteriores e estranhou a ausência do homem. Inventei uma história em que a senhorinha mendiga é uma bruxa do Leste e flagrou seu marido apaixonado por uma “gata” francesa. Imediatamente transformou-os em cachorro e gato, e vivem juntos agora, presos a ela, só brigando. Nina adorou. “E eles ainda têm que aguentar a música da velhinha”.  

 

Nina e a montanha-russa

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Depois dos loopings, um beijo na cascavel.

Eu estava louca pra ir naquela montanha-russa. A primeira vez na minha vida. Ela bancou a corajosa e quis me acompanhar. Claro, a primeira dela também, dando um salto (um looping) de três décadas no histórico familiar. A altura já permitia. Acabamos indo os três. Na fila, num corredor escuro e longo, lotado e sufocante, ouvíamos os gritos daqueles que, sobre nossas cabeças, já estavam nos vagões, cruzando o universo, passando pelas galáxias, buracos negros e supernovas, como anunciavam os monitores, dos quais saíam também os alertas de que pessoas com problemas cardíacos não deviam experimentar aquele brinquedo. Eram gritos de pavor mas ainda parecia divertido. O chão e o teto tremiam. Perguntei até o último momento se ela tinha certeza se iria mesmo enfrentar altura e rodopios. Ela me garantiu. Mas no momento em que sentamos lado a lado na nave espacial, suas mãozinhas estavam geladas e ela se arrependeu. “Não quero mais”, mas era tarde. O baque da primeira subida na montanha-russa foi forte, um prenúncio dos sustos que viriam a seguir. Foi a primeira vez, ainda, em que me senti realmente impotente. E de ponta-cabeça. Não podia mais protegê-la, só continuar segurando sua mão e dizendo (gritando) “calma, já vai acabar, fecha os olhos, eu tô aqui”.

A metáfora é irresistível. Há um ano, trouxe a Nina para uma aventura que fez nossa vida virar de ponta-cabeça. Frágil, ela seria a pessoa mais afetada pelos sustos de um universo completamente diferente, uma realidade paralela com outra língua, outro modo de ser e de estar no mundo. Ela não teve medo e enfrentou tudo bravamente. Escola. Língua. Distância. Saudade. Amizades. Estudo. Nunca disse “não quero mais”. Aceitou e assumiu um capricho dos adultos, resignada, bem humorada e feliz.

Nove anos atrás eu a trouxe para essa montanha-russa. Hoje o tempo me pesa e sou eu que preciso mais de suas mãozinhas, da sua presença. Ainda a protejo, mas sou cada vez menos necessária. Logo ela vai começar a escolher suas próprias aventuras e eu, mesmo que me sinta impotente de novo, espero que ela sempre escute meu eco, “estou aqui”.